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abril 2, 2006

Memória

Vi outro dia na televisão um homem que dizia ter lido em certo livro a frase "a tristeza é a mais bela das emoções". Não sei se concordo com isso, mas sei que a tristeza é forte. Sei também que ela ajuda a lembrar de coisas fundas que a gente queria deixar ali no cantinho, sem tocar. Aí, a tristeza vem e nos diz "é preciso tocar nisso, vou te mostrar como". Durante alguns dias que antecederam meu aniversário, tive uma sensação muito forte de que o tempo não me espera mais, de que os meus 20 anos vão longe e tudo isso envelopado por uma saudade inominável, uma saudade que tinha várias faces: meu pai, o quintal da casa onde cresci, quando eu cabia em uma calça n° 38, quando eu não tinha pêlos brancos nas sobrancelhas e na barba, quando eu não me importava com o tempo, quando eu podia tomar um pileque sem me preocupar com o dia seguinte, quando eu vestia camiseta sem me preocupar com meu abdômen, quando eu não tinha pés atrás com o gênero humano...
Minha mãe fez um jantarzinho a que foram, na noite do sábado (18/03), os mais antigos amigos e minha família apenas. Fiquei comovido (e quem me conhece sabe que sou das lágrimas) porque era impossível não ficar feliz diante do amor que eu recebia sem pensar "um dia eu não farei mais parte da festa da vida". Mas enquanto esse dia não vem, eu tratarei de ser feliz, ainda que melancolicamente, e agradecerei todos os dias porque dou amor, porque recebo amor e nem o tempo, nem a morte jamais poderão me tirar isso (ainda que esteja fora da casa do tempo, de quem sou apenas um hóspede).
O jantarzinho de aniversário acabou e ficamos sentados em redor de uma mesa eu, minha mãe, meu sobrinho mais velho, a noiva dele e o Ed. Conversamos longamente sobre as perdas, os fantasmas, a vida que passa e o rio que não pára. O Ed disse, quando voltávamos pra casa, que aquele foi o melhor momento do jantar e, aqui, peço licença à minha mãe para contar o que, talvez, seja um dos melhores presentes que ganhei aquela noite. É um relato: minha mãe, ao nascer, foi entregue (não se sabe se pela própria mãe, se pelo pai ou pelos dois) a uma das avós. O fato é que, após a experiência do afastamento familiar, a avó morreu e minha mãe voltou para a casa dos pais, sendo tratada como uma empregada ou, no máximo, uma agregada. As coisas foram ficando difíceis e, um dia, quando partia da casa dos pais, ela perguntou à mãe porque foi apartada do convívio familiar. Minha avó ordenou que ela se calasse, que parasse ali a conversa, caso contrário, seria castigada. Desnecessário dizer que a convivência entre as duas mulheres foi absurdamente difícil pela vida afora. Certa vez, já próxima da morte, minha avó chamou por minha mãe, pediu que sentasse na beirada da cama, segurou-lhe as mãos e declarou "filha, eu tenho muita coisa a te dizer e tem que ser já, porque acho que vou logo dessa para melhor, olha..." e a conversa foi interrompida por uma das minhas tias, que irrompeu pelo quarto falando de panelas, cozinha, casa. Minha avó largou rapidamente as mãos de minha mãe e morreu dois dias depois sem dizer o que pretendia. Creio, contudo, que ambas sabiam o que deveria ser dito e a mão do destino, agindo por meio de uma tia estouvada, houve por bem paralisar aquele momento.
Nunca vou esquecer disso.

por Gabis às 8:55 PM | comentários (5022)